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Por que parte das periferias se afastou da esquerda? Uma pergunta sobre confiança, território e representação.

A expressão “pobre de direita” aparece com frequência em debates eleitorais e nas redes sociais, quase sempre como se houvesse uma contradição entre viver com poucos recursos e apoiar candidaturas conservadoras. Mas a pergunta pode ser formulada de outro modo: a periferia já foi de esquerda? E, antes disso, como se formam as categorias políticas com que as pessoas interpretam a própria vida?

Este texto parte das experiências de populações pobres urbanas em sua diversidade territorial e social. Favelas, comunidades, bairros periféricos e outros territórios populares têm histórias, formas de organização e relações com o poder público distintas. Os termos não são equivalentes, e nenhum deles descreve um grupo homogêneo. A expressão adotada aqui funciona como um enquadramento para observar experiências diversas sem presumir que renda ou endereço determinem uma posição política.

A dimensão urbana ajuda a situar a discussão. No Censo de 2022, 87,4% da população brasileira vivia em áreas urbanas. Naquele mesmo levantamento, o IBGE identificou 12.348 Favelas e Comunidades Urbanas em 656 municípios, onde moravam cerca de 16,4 milhões de pessoas, 8,1% da população do país. Esses dados dimensionam territórios oficialmente mapeados pelo Censo, mas não abrangem todas as formas de pobreza urbana nem todos os bairros periféricos (IBGE, 2022).

Levantamentos locais também mostram que as demandas não se reduzem a uma disputa abstrata entre esquerda e direita. A pesquisa Sonhos da Favela, do Data Favela, ouviu 4.471 pessoas adultas moradoras de favelas em diferentes regiões do país, com ênfase no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ao projetar o futuro da família, 31% mencionaram o desejo de uma casa melhor, 22% uma saúde de qualidade e 12% a entrada dos filhos na universidade. Para mudanças no território, saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%) e transporte (13%) estiveram entre as prioridades. São respostas de uma pesquisa específica, não um retrato de todas as populações pobres urbanas; ainda assim, ajudam a manter as condições concretas de vida no centro da análise (Data Favela, 2026).

A pobreza urbana também é uma questão de acesso desigual aos bens e serviços da cidade. Transporte, saneamento, moradia, segurança, saúde, educação, trabalho e espaços de convivência participam da maneira como o poder público é percebido. Quando problemas cotidianos persistem após sucessivos pleitos, pode crescer a sensação de que a política institucional não escuta ou não entrega. Transformações urbanas e processos de gentrificação podem igualmente ser vividos como valorização por alguns e como aumento de custos, perda de vínculos ou exclusão por outros (Nascimento, 2019). Essas percepções precisam ser compreendidas em cada contexto, sem convertê-las automaticamente em prova de incompetência governamental.

Pesquisas sobre a virada à direita mostram que não houve uma trajetória única. Richmond e McKenna analisaram eleições presidenciais de 2002 a 2018 nas periferias metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro e identificaram uma redução do apoio ao PT ao longo dos anos 2010. Também observaram diferenças importantes entre territórios, relacionadas a condições de trabalho, serviços, organizações locais e experiências cotidianas. Em um estudo etnográfico sobre a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, De Tommasi e Velazco descreveram o enfraquecimento de associações de moradores que eram reconhecidas como porta-vozes locais e o surgimento de outras formas de organização e relação com agentes públicos e privados. São recortes situados: ajudam a formular perguntas sobre mudança e mediação, sem autorizar generalizações sobre todas as periferias (Richmond; McKenna, 2024; De Tommasi; Velazco, 2017).

A identificação política não nasce pronta nem decorre automaticamente da posição de classe. Ela se forma em experiências de trabalho, família, religião, escola, organizações sociais, relações com serviços públicos e redes de comunicação. As palavras “esquerda” e “direita” podem não ser referências presentes, suficientes ou compartilhadas; ainda assim, há repertórios para interpretar segurança, proteção, família, religião, mérito, desigualdade e futuro. A questão é como esses sentidos se articulam em cada trajetória e com quem as pessoas aprendem a nomeá-los.

A escola é um dos espaços possíveis dessa aprendizagem política. Em pesquisa com 20 estudantes do Proeja/Ifes, Luciana Girelli examinou como se formaram identificações políticas nas eleições de 2018 e 2022. As trajetórias estudadas mostraram que diferentes espaços de amparo — entre eles a internet, a religião, a escola e organizações sociais — tiveram pesos distintos. Os participantes também consideraram pertinente discutir política na escola, desde que o debate reconheça o conflito sem transformar o oponente em inimigo. O estudo não representa todos os estudantes, mas oferece uma pista importante: educação política não é ensinar jovens a adotar um rótulo; é ampliar a capacidade de compreender a história e os sentidos das correntes políticas, reconhecer direitos e discutir projetos em disputa (Girelli, 2024).

O livro *O pobre de direita: a vingança dos bastardos* (2024), de Jessé Souza, oferece uma interpretação do fenômeno que coloca o racismo e a hierarquia social no centro da análise. Já Moysés Pinto Neto propõe compreender a passagem do lulismo ao bolsonarismo popular sem explicar as escolhas das classes populares apenas por influência das elites ou da mídia. Essas leituras ajudam a contestar a ideia de que apoiadores pobres da direita seriam simplesmente enganados ou irracionais. São interpretações distintas e debatidas, que ganham força quando colocadas em diálogo com pesquisas sobre territórios, trajetórias e formas concretas de organização (Souza, 2024; Pinto Neto, 2024).

Expectativas frustradas também podem participar desse processo. Em estudo sobre brasileiros de baixa renda e da classe trabalhadora, Junge e colegas observaram que participantes que relataram mobilidade social ascendente interrompida durante a crise econômica tendiam a expressar mais sentimentos antipetistas do que outros grupos pesquisados. O resultado sugere uma relação possível entre expectativas, memória de governos e avaliações da mudança, mas não explica sozinho o voto das pessoas pobres nem permite atribuir a mesma experiência a todas elas (Junge et al., 2023).

As formas de comunicação também se transformaram. Redes sociais e televisão aberta coexistem em um ambiente no qual políticos e influenciadores podem manter contato frequente com públicos específicos. Uma pesquisa do InternetLab, baseada em 100 questionários aplicados a jovens no Brasil (250 no total, em cinco países), identificou um ecossistema digital amplo e fragmentado; entre os influenciadores citados com mais frequência no recorte brasileiro, havia forte presença de nomes associados a valores neoliberais e de direita. O tamanho e o desenho da amostra situam esses achados, que não devem ser generalizados para todos os jovens brasileiros. Rosana Pinheiro-Machado, por sua vez, analisa como o empreendedorismo digital pode ser apresentado como promessa de autonomia, renda e reconhecimento a trabalhadores em condições precárias, e como influenciadores conservadores conectam essas aspirações a discursos da extrema direita. Essas análises não significam que todos os jovens ou trabalhadores de plataforma compartilhem as mesmas posições, nem que sejam receptores passivos de mensagens. Alegações de favorecimento algorítmico precisam ser demonstradas por evidências comparáveis, não apenas por impressões políticas (InternetLab, 2024; Pinheiro-Machado, 2025).

Nos últimos 30 anos, presidentes do PT ocuparam a Presidência por cerca de 17 anos e meio, somados os períodos de Lula e Dilma Rousseff até o afastamento de 2016 e o mandato iniciado em 2023. Esse dado situa a história recente, mas não responde por si só por que políticas públicas se convertem — ou não — em confiança, identificação e apoio eleitoral. O tempo no governo não garante que as políticas sejam reconhecidas como respostas às necessidades de cada lugar, nem que os vínculos entre partidos e moradores permaneçam estáveis.

Talvez, então, a questão não seja explicar “o pobre de direita” como uma figura única. É investigar como se formam as identificações políticas quando esquerda e direita não são referências compartilhadas; como deslocamentos, trabalho, serviços, organizações e meios de comunicação participam dessa formação; e o que diferentes grupos querem dizer quando falam em “retomar o controle” ou recuperar o futuro. A geografia contextualiza essas experiências, sem determinar ideologias. E a escuta territorial ajuda a distinguir o que as instituições prometem daquilo que as pessoas reconhecem como presença, proteção e possibilidade de mudança.

Compreender por que parte das experiências de populações pobres urbanas se afasta da esquerda exige, portanto, observar as mediações entre cotidiano e política: quem escuta as demandas, por quais canais elas chegam, quem as representa e se há retorno depois da campanha. Escolas, organizações comunitárias, sindicatos, igrejas, coletivos, meios de comunicação, governos e partidos participam dessa construção de modos diferentes. É nesse terreno de relações, e não em uma suposta consciência política uniforme das periferias, que se pode discutir confiança, representação e democracia.

Por Natália Resende de Souza e Paola Pamela Vargas Muniz

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