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Meio ambiente e saúde: a conexão que não podemos ignorar

Quando se acorda pela manhã e se abre a torneira, raramente se para para pensar na jornada que aquela água percorreu até chegar às mãos, nem sobre o que acontece com os resíduos após se puxar a descarga e mais outras diversas coisas comuns no dia a dia. Essas ações cotidianas e automáticas, escondem uma realidade incômoda: a saúde do corpo está profundamente conectada à saúde do planeta, e diretamente ligada a uma relação biológica e social que determina quem vive bem e quem sofre as consequências da degradação ambiental.

A conexão entre meio ambiente e saúde não é nova para a ciência, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece há décadas que fatores ambientais são responsáveis por aproximadamente 24% de todas as doenças globais. Na prática isso significa que quando um rio é contaminado por rejeitos de mineração, as pessoas que dependem daquela água para beber, cozinhar e higiene pessoal desenvolvem doenças respiratórias, gastrointestinais e dermatológicas. Também significa que quando uma floresta é desmatada, o ciclo hidrológico se altera, reduzindo a disponibilidade de água e aumentando a incidência de doenças relacionadas à seca e à desnutrição, entre outros.

O caso da mineração é um exemplo concreto, a extração de minérios deixa um rastro de contaminação que persiste por décadas, com rejeitos depositados em barragens e lagoas que liberam metais pesados como chumbo, mercúrio e arsênio nas águas subterrâneas e superficiais. Comunidades que vivem próximas a essas áreas enfrentam taxas elevadas de câncer, problemas neurológicos em crianças e doenças crônicas (Porto; Pacheco; Leroy, 2013). O rompimento da barragem de Mariana, em 2015, prejudicou ecossistemas inteiros e impactou a saúde de milhares de pessoas que tiveram suas vidas alteradas pela lama de rejeitos.

O desmatamento, por sua vez, funciona como um amplificador de crises sanitárias, já que quando há remoção da cobertura florestal, altera-se padrões de chuva, aumenta-se temperaturas locais e cria-se condições ideais para a proliferação de doenças transmitidas por vetores, como dengue e malária. Além disso, o desmatamento afeta desproporcionalmente populações indígenas e tradicionais, que perdem seus territórios e o acesso aos recursos naturais que sustentam sua forma de vida. Estudos já indicam que comunidades indígenas que mantêm seus territórios preservados apresentam indicadores de saúde significativamente melhores do que aquelas que sofreram invasão e degradação ambiental ao longo dos anos.

A falta de saneamento básico e acesso a água limpa é talvez o indicador mais direto dessa desigualdade, sendo que, no Brasil, enquanto 93,4% da população urbana tem acesso a água tratada, apenas 32,3% da população rural desfruta desse direito (IBGE, 2023). A disparidade é ainda mais brutal quando se olha para o acesso a esgotamento sanitário: 78% nas cidades contra apenas 9,6% nas áreas rurais (IBGE, 2023). Esses números não são abstratos, eles representam crianças que contraem diarreia por beber água contaminada, mulheres que desenvolvem infecções urinárias recorrentes, idosos que morrem de doenças evitáveis, entre muitos outros fatores. Dados alarmantes da UNICEF alertam que 2,1 milhões de crianças e adolescentes brasileiros não têm acesso adequado a água potável, e a maioria deles são negros e indígenas (UNICEF, 2022), demonstrando, mais uma vez, o impacto das desigualdades na distribuição dos meios necessários à vida digna.

A degradação ambiental não afeta a todos igualmente, populações de baixa renda, comunidades rurais, povos indígenas e quilombolas vivem nos territórios mais impactados pela mineração, pelo desmatamento e pela falta de infraestrutura sanitária. Enquanto isso, os benefícios econômicos da exploração ambiental concentram-se nos grandes polos de desenvolvimento, sendo essa a essência da injustiça socioambiental, que reside na distribuição desigual tanto dos danos quanto dos ganhos.

As grandes infraestruturas, como as hidrelétricas, amplificam esse padrão ao deslocar comunidades inteiras para dar lugar a reservatórios que geram energia para cidades distantes. Pescadores e agricultores podem ser prejudicados pela ausência do rio ou de terras cultiváveis, além de perderem muitas vezes a possibilidade de viver de acordo com seus conhecimentos e tradições. Os impactos na saúde mental também são muito significativos e merecem tanto destaque quanto os físicos. A depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático são comuns entre populações deslocadas (Comissão Econômica para a América latina e o Caribe, 2021) e indicam clara perda de qualidade de vida e abrupta alteração nos padrões e tradições das populações impactadas.

Analisando o aspecto comunicacional desses fenômenos percebemos que a postura das empresas e do governo tem grande potencial de impacto nas consequências. Quando usam termos como “desenvolvimento sustentável” ou “progresso” para descrever aqueles projetos que na verdade possuem maior impacto poluidor, estão praticando o chamado de greenwashing, a prática de “pintar de verde” algo que é fundamentalmente prejudicial. Essa manipulação narrativa não apenas distorce a realidade, mas também afeta a saúde mental coletiva, criando confusão, apatia e desincentivando mobilizações (Instituto Ethos, 2020).

Portanto, é essencial reconhecer que saúde não é apenas ausência de doença, mas um estado de bem-estar físico, mental e social, constantes na população. Isso significa que proteger o meio ambiente não é um luxo ou uma questão secundária, mas uma necessidade fundamental para a saúde pública. Políticas públicas devem observar as diversas dimensões do problema, já que não é possível ter planos de saúde robustos enquanto os ecossistemas dos quais a população depende são destruídos, e é necessária regulação ambiental rigorosa, investimento em saneamento básico para todas as regiões, e respeito aos direitos territoriais de comunidades.

Além disso, como indivíduos e como sociedade, é preciso desenvolver consciência crítica sobre as narrativas que são vendidas, questionando quando se fala em “progresso” sem mencionar o custo humano e ambiental, procurando informações em fontes confiáveis, e reconhecendo que a saúde está conectada à saúde de pessoas que nunca se conhecerão, em lugares que talvez nunca se visite.

A conexão entre meio ambiente e saúde está presente na água que se bebe, no ar que se respira, nas doenças que afetam as famílias, e ignorar essa conexão é ignorar uma das maiores ameaças à saúde pública do nosso tempo, enquanto reconhecê-la abre a possibilidade de ação individual, coletiva e política. Ações, mesmo que pequenas, são um passo em direção ao futuro onde saúde e ambiente não são um privilégio, mas direitos de todos.

REFERÊNCIAS

PORTO, M. F. S.; PACHECO, T.; LEROY, J. P. Injustiça ambiental e saúde no Brasil: o mapa de conflitos. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2013.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Brasília: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023.

UNICEF. Situação da infância e adolescência no Brasil. Brasília: Fundo das Nações Unidas para a Infância, 2022.

COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE. Deslocamentos forçados e saúde mental na América Latina. Santiago: CEPAL, 2021.

INSTITUTO ETHOS. Greenwashing: o uso da sustentabilidade para mascarar injustiças socioambientais. São Paulo: Instituto Ethos, 2020.

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