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Da excelência científica ao pertencimento social: o desafio da segunda metade da Década do Oceano

Imagem ilustrativa gerada do IA.
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                                                                                                                                                                                   (Imagem ilustrativa criada por IA)
Por Natália Resende de Souza

A Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030) alcança sua metade em um momento particularmente estratégico para o Brasil. Em 2027, o país sediará a Conferência Global da Década do Oceano, reunindo governos, pesquisadores e organizações de diferentes partes do mundo para discutir os rumos da ciência oceânica e das políticas voltadas à sustentabilidade marinha. Mais do que uma oportunidade de projeção internacional, esse contexto convida a uma reflexão sobre um desafio que permanece pouco discutido: como aproximar a produção científica da sociedade?

Nas últimas décadas, o Brasil ampliou significativamente sua capacidade de produzir conhecimento sobre os oceanos. Houve crescimento da pesquisa científica, expansão da pós-graduação, fortalecimento de instituições dedicadas às Ciências do Mar e consolidação de áreas estratégicas, como a Biotecnologia Marinha. Esse avanço demonstra que o país dispõe de competências científicas relevantes para enfrentar desafios relacionados à biodiversidade, à bioeconomia, às mudanças climáticas e à conservação marinha.

Entretanto, produzir ciência de excelência não garante, por si só, que esse conhecimento se torne socialmente significativo. Em muitos casos, a pesquisa permanece restrita aos ambientes acadêmicos e institucionais, alcançando de forma limitada as comunidades que convivem diariamente com os ecossistemas costeiros.

Foi justamente essa questão que orientou minha pesquisa de doutorado em Biotecnologia Marinha. Ao analisar mais de quatro décadas de cobertura jornalística sobre a Biotecnologia Marinha e realizar um estudo de recepção com moradores de Arraial do Cabo (RJ), tornou-se evidente um paradoxo: a ciência é reconhecida como importante e confiável, mas permanece distante do cotidiano das pessoas.

Essa distância não decorre da falta de interesse da população. Pelo contrário, os participantes demonstraram forte preocupação com temas como conservação ambiental, pesca, turismo e qualidade das praias. O que aparece como desafio é a ausência de mediações capazes de conectar o conhecimento produzido nas instituições científicas às experiências concretas vividas pelas comunidades.

Em outras palavras, o problema não está apenas na quantidade de informações disponíveis, mas na forma como elas circulam e são apropriadas socialmente. Comunicação pública da ciência, divulgação científica, educação, participação social e cultura oceânica deixam de ser atividades complementares para se tornarem componentes centrais da própria governança dos oceanos.

A Década do Oceano reconhece essa necessidade ao incluir, entre seus desafios, o fortalecimento da relação entre sociedade e oceano. Nos últimos anos, iniciativas de cultura oceânica, ciência cidadã e participação pública cresceram em diferentes países, indicando uma mudança importante na forma como se compreende a produção do conhecimento. Cada vez mais, reconhece-se que soluções para os problemas oceânicos dependem da colaboração entre pesquisadores, gestores públicos, educadores, comunidades tradicionais, pescadores e demais atores sociais.

No Brasil, essa agenda ganha ainda mais relevância diante da preparação para a Conferência Global da Década do Oceano de 2027. Diversos estados vêm promovendo oficinas participativas para atualizar o Plano Nacional de Implementação da Década, ampliando o diálogo com diferentes segmentos da sociedade. Essas iniciativas representam um avanço importante, mas seu impacto dependerá da capacidade de transformar processos pontuais de consulta em estratégias permanentes de comunicação, participação e construção coletiva do conhecimento.

Mais do que divulgar resultados científicos, é necessário criar condições para que a ciência faça parte das conversas cotidianas, das decisões territoriais e das políticas públicas. Quando comunidades reconhecem que a pesquisa dialoga com seus problemas, seus saberes e suas expectativas, a ciência deixa de ser percebida apenas como uma atividade especializada e passa a integrar a vida social.

Talvez esse seja o maior desafio da segunda metade da Década do Oceano: não apenas produzir mais ciência para o oceano, mas fortalecer uma cultura científica capaz de aproximar conhecimento, território e sociedade. Afinal, um oceano sustentável depende tanto da qualidade da pesquisa quanto da capacidade de construir relações duradouras entre ciência e cidadãos.

Nota da autora
Parte das reflexões apresentadas neste texto foi originalmente publicada em versão jornalística na The Conversation Brasil, sob o título “Década do Oceano chega à metade com o desafio: aproximar ciência e sociedade” https://theconversation.com/decada-do-oceano-chega-a-metade-com-o-desafio-aproximar-ciencia-e-sociedade-288269?utm_medium=article_clipboard_share&utm_source=theconversation.com.

Acesse o artigo em: The Conversation Brasil.

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