
Por que o letramento algorítmico é essencial?
Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) não é mais apenas um conceito de ficção científica. Ela simula processos humanos como aprendizado e tomada de decisão em quase tudo o que consumimos online, das nossas redes sociais aos mecanismos de busca. No entanto, essa evolução traz consigo desafios profundos, especialmente no que diz respeito aos algoritmos e à violência digital de gênero.
O que é “letramento algorítmico” e por que precisamos dele?
O letramento algorítmico vai além de saber usar um computador. Trata-se da capacidade de entender como os algoritmos funcionam e como eles influenciam o que vemos, consumimos e pensamos. Em um contexto educativo, essa competência é essencial para:
- Reconhecer bolhas informacionais e conteúdos filtrados.
- Compreender os vieses tecnológicos que moldam nossa percepção da realidade.
- Promover uma interação consciente com as tecnologias, mitigando riscos e aproveitando potencialidades.
Curiosamente, até a cultura pop reflete esses vieses: em muitos filmes, a IA é personificada como feminina e, frequentemente, retratada como uma figura vilã ou perigosa.
A lente da violência digital de gênero
A revolução digital infelizmente exacerbou formas já existentes de violência, como assédio sexual e discurso de ódio, além de criar novos abusos, como deepfakes, doxing e abuso baseado em imagens criadas por IA. Os algoritmos muitas vezes funcionam como amplificadores de conteúdos misóginos, como os da cultura “red pill”, o que reforça discursos de ódio que podem se traduzir em violência no mundo físico, incluindo o feminicídio.
Dados globais da ONU Mulheres revelam a gravidade do cenário:
- Estudos sugerem que entre 16% e 58% das mulheres já sofreram violência facilitada pela tecnologia.
- Em regiões como os Estados Árabes, esse número chega a 60%.
- Na Europa e nos EUA, cerca de 23% das mulheres relataram pelo menos uma experiência de abuso online.

O cenário no Brasil e a rede de proteção
No Brasil, a organização SaferNet (ONG referência em direitos humanos digitais) aponta que as mulheres são as maiores vítimas de crimes digitais. Dados de atendimentos da helpline mostram que as mulheres representam:
- 70,5% dos casos de exposição de conteúdo íntimo (sexting).
- 67,4% dos casos de ciberbullying e ofensas.
- 62,1% dos atendimentos por conteúdos violentos.
Essas violações não estão desconectadas do “mundo real”, elas estão alicerçadas na opressão sócio-política das mulheres e em expectativas sociais sobre o comportamento feminino.
Educação como caminho de prevenção
Para romper esse ciclo, a educação surge como a principal estratégia de prevenção. Iniciativas como o guia “Meninas em Rede”, criado pela SaferNet em parceria com o UNICEF, oferecem ferramentas para que pais, educadores e as próprias jovens saibam como agir diante da violência online.

Além disso, novas diretrizes educacionais estão surgindo para que escolas incluam conteúdos de prevenção à violência contra a mulher em seus currículos, visando uma transformação cultural que utilize a tecnologia de forma correta e benéfica, e não para a opressão.
Dado que a inteligência artificial e os algoritmos das plataformas digitais desempenham papel significativo na circulação e na amplificação de discursos de ódio e violências de gênero no ambiente virtual, interagir de forma consciente com a IA e entender os mecanismos por trás das telas é o primeiro passo para construir um ambiente digital mais seguro e justo para mulheres, meninas e populações LGBTQIA+. Se quiser saber mais sobre a relação entre a IA e a violência de gênero, fiquem de olho no nosso podcast e confiram as nossas redes sociais: https://www.instagram.com/obscopc/.
Referências
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BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei nº 896/2023. Tipifica a misoginia como crime. Brasília, 2026.
SAFERNET BRASIL. Mulheres são maioria dos atendimentos por exposição íntima, ofensas e conteúdos violentos na internet. Disponível em: https://new.safernet.org.br. Acesso em: 10 abr. 2026.
SAFERNET BRASIL. Meninas em rede: guia para fortalecimento de redes de proteção e apoio contra a violência online. Disponível em: https://new.safernet.org.br. Acesso em: 11 abr. 2026.
BRASIL. Senado Federal. Violência digital contra mulher também é crime; veja como denunciar. Senado Notícias, Brasília, DF, 13 mar. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/03/13/violencia-digital-contra-mulher-tambem-e-crime-veja-como-denunciar. Acesso em: 3 jun. 2026.
UN WOMEN. FAQs: Digital abuse, trolling, stalking, and other forms of technology-facilitated violence against women | UN Women – Headquarters. 2025. Disponível em: https://www.unwomen.org/en/articles/faqs/digital-abuse-trolling-stalking-and-other-forms-of-technology-facilitated-violence-against-women.
UNESCO. Diretrizes para a governança das plataformas digitais. [s.l.] UNESCO Publishing, 2023. Disponível em: unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000387560.locale=en.
WACHOWSKI, Lana; WACHOWSKI, Lilly. The Matrix. Estados Unidos: Warner Bros., 1999.